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Pecado da Gula ou...



...Tempos difíceis, de concílios, conflitos, conceitos e cartilhas socialmente incorretas...

Comer é uma necessidade biológica dos animais em geral e isto não se discute mais, entretanto, o gosto de comer e beber mais do que o necessário já foi considerado por muitos e, principalmente pela igreja católica, uma infração às leis divinas, o famoso Pecado da Gula.

O assunto me veio à cabeça ao perceber que vivemos tempos esquisitos, de concílios e conflitos, conceitos e cartilhas do político e socialmente incorretos. Ao pesquisar, encontrei Santo Tomás de Aquino (1225-1274) que dizia que são três os remédios contra a Gula: rezar antes e depois das refeições, praticar mortificação à mesa, deixando de comer os alimentos mais apetitosos e evitar as tavernas e as pessoas que costumam levar as demais aos desvarios etílicos.

Felizmente durou pouco, pois sacerdotes e freiras simplesmente capitularam ao Pecado da Gula. Nos mosteiros e conventos da Idade Média e da Renascença a mesa dos religiosos permaneceu escandalosamente farta. Sacerdotes e freiras, é verdade, observavam o jejum e a abstinência nos dias indicados pelo calendário litúrgico, mas nos domingos e datas festivas, o apetite corria solto.

Foi nas cozinhas das instituições eclesiásticas e nos palácios reais que a culinária alcançou o supremo esplendor (não podemos deixar de citar os famosos doces conventuais portugueses, exemplo máximo desta prática na qual os ovos e o açúcar vivem um encontro que beira à magia e se transformam em sobremesas soberbas). Alguns pontífices como, por exemplo, Alexandre VI, pai da famosa Lucrécia Borgia, ficaram conhecidos por seu voraz apetite, mas esta já é uma outra historia...

Para nossa sorte e salvação no séc.XVIII aparece Brillat-Savarin,,um juiz francês apaixonado pelos prazeres da mesa (e do amor ), tido como o fundador da ciência da gastronomia que definitivamente nos tira todas as culpas e eleva o ato de comer a um ato de supremo prazer, dissecando a mecânica do gosto e dando origem ao que se chama hoje de gastronomia.

Seu livro “A fisiologia do gosto”, é referência obrigatória para quem quer se aprofundar um pouco mais neste tema. Já disse e repito é obrigatório e nunca é demais citar alguns dos seus aforismos. Dentre eles estão:

O Criador, ao obrigar o homem a comer para viver, o incita pelo apetite e o recompensa pelo prazer.

Os animais se repastam, o homem come, somente o homem de espírito sabe comer.

O prazer da mesa pertence a todas as épocas, todas as condições, todos os países e todos os dias. Pode se associar a todos os outros prazeres e é sempre o último para nos consolar da perda destes.

Os que se empanturram ou se embriagam não sabem comer nem beber.

A descoberta de um novo manjar causa mais felicidade ao gênero humano do que a descoberta de uma estrela.

O destino das nações depende da maneira como elas se alimentam.

Além destes aforismos, ele ressalta que a gastronomia é um ato de nosso julgamento, pelo qual damos preferência às coisas que são agradáveis, ao paladar em vez daquelas que não tem essa qualidade.

Hoje, a ciência mais especificamente Sigmund Freud, (sempre ele...) descobriu que o apetite à mesa e à cama obedecem ao mesmo comando cerebral. Os impulsos motivadores de ambos os prazeres são despertados pelo mesmo hormônio, daí o ilimitado apego à comida revelado pelos sacerdotes e freiras descritos acima. Devido à obediência dos votos de celibato e castidade, resta-lhes exercitar um prazer capaz de compensar a surdez aos clamores do sexo...

Antes que esta nossa conversa comece a provocar discussões sócio-politico- econômicas sobre o certo e o errado e descambe para um rumo do politicamente incorreto, me lembrei de uma entrevista que li recentemente na revista “Gula” com o historiador e antropólogo português Alfredo Saramago, autor de livros sobre hábitos culinários que muito bem vem ao caso:

  • – “...gente como eu vive tempos difíceis, disse e volto a repetir, que porque gosto de tauromaquia, de caça, charutos, de bons vinhos, de boa comida e ainda por cima sou gordo, lançaram-me para um território onde são colocados os socialmente incorretos...”

Pois é amigos, como podem perceber, o assunto é longo e saboroso e certamente ficaríamos por aqui a conversar em lautas discussões sobre o certo e o errado, sentados à mesa tal qual depois de um almoço de domingo ... um licor, um café ... quem sabe uma amêndoa amarga... depois outro e mais outro ... e a tarde a se esticar lenta e vagarosamente flui...como aliás, deve ser um almoço de domingo ...

O livro do mês não é um livro e sim um filme, “O tempero da vida” (Politiki Kouzina) filme grego de 2003 (já nas boas locadoras), no qual gastronomia e astronomia se fundem , para contar uma historia de uma beleza profunda, exílio fisico e emocional, saudades, mortes, terra natal, retornos ... amores antigos ..., enfim, tudo misturado ao cheiro das almôndegas com canela, alhos e cebolas, cravos espetados em corações, como se o cinema tivesse cheiro e alma ... Certamente, uma experiência única!

E já que a conversa anda pelas bandas do cinema, e para continuar no espírito da coisa, do politicamente incorreto, que tal rever um clássico dos anos 70, “La grande bouffe” (1973) , de Marco Ferreri , traduzido no Brasil como “A comilança”. Este sim, totalmente incorreto. Procurem e aluguem. Vale a pena tentar chegar até ao fim do filme. Depois, me contem ..mas e para não dizer que realmente não falei de livros “As mulheres não engordam “(editora Campus), de Mireille Guilliano , ,francesa ,executiva da Veuve Clicquot,uma deliciosa associação entre o pecado e a culpa onde ela brilhantemente nos traduz a crescente psicose que nos apaga os valores simples do prazer de se comer uma carne vermelha,de se beber um bom vinho e de se usar um pouco de manteiga sem culpas......

Abraços gulosos a todos e “inté” à próxima.

Pedro Rui Botelho
pedrorui@servifacil.com.br




 

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