A comida sempre me interessou. Também adoro arrumar a mesa e oferecer um almoço ou um jantar aos amigos da forma mais impecável possível. Quem me conhece sabe disso. Sim eu sei, vivemos em tempos em que o cozinheiro é o mordomo, que também é o lavador de pratos além. É claro, de ter que ser o anfitrião, com um detalhe: anfitrião perfeito.
Mesmo assim, com tudo isso, nunca deixei de estar ciente de que receber bem exige um bom senso de estética e coreografia, não só em relação à decoração da mesa como um todo, mas principalmente. No que diz respeito à apresentação dos pratos a serem servidos e, como estamos no final do ano onde as festas se misturam: confraternizações, ceias de Natal e Reveillon. lautos almoços, enfim, eis a grande oportunidade de exercitarmos todo o bom senso que descrevi acima.
Sim, eu sei que estamos em tempos confusos onde o certo e o errado se misturam da forma desagradável possível. Vivemos tempos de decepções, mas nem a corrupção deslavada nem a miséria humana a nossa volta podem ou devem nos tolher do simples prazer de uma boa mesa. Na realidade, o ano que passou, confesso a vocês, não foi dos melhores. Confuso, estranho, indeciso, mas ao término, coisas boas surgiram como que por encanto. Assim é a vida e sempre será, ou seja, depois da tempestade, inevitavelmente virá a calmaria.
Assim sendo, estou vivendo a minha calmaria entre Tucupis, tacacás, buritis, maniçobas, espumas de taperebás, açaís, filés de filhote na crosta da farinha d’ água, saladas de feijão manteiguinha de Santarém e purês de pupunha. Resumindo: tive o prazer, a sorte e o privilégio de ser apresentado à cozinha de Paulo Martins, chefe e proprietário do restaurante “ Lá em casa”, em Belém do Pará, que ao final do almoço, tipo domingão entre outras divagações que só a boa comida nos proporciona, cheguei à simples conclusão: a vida é bela, o futuro é promissor e o Brasil, acreditem ou não, vai dar certo. Ufanismos à parte, como podem perceber, os efeitos de tamanho banquete são realmente perigosos, ao corpo e principalmente à mente.
O que posso sugerir a vocês? Visitem Belém do Pará, principalmente se seu destino de partida for Manaus, Fortaleza ou Rio de Janeiro. A viagem vai proporcionar o aprendizado de como se faz um verdadeiro roteiro turístico de bom gosto, simples e real, que inclui belas paisagens e um mergulho na deliciosa gastronomia local. A idéia para este artigo de fim de ano, a princípio, era escrever sobre os banquetes greco-romanos, Satyricon, Petrônio, sobre o “Convivium”, sobre o “Symposium”, ou seja, verdadeiros universos masculinos nos quais o ato de comer se transformou em um evento social e visto hoje como umas das pedras angulares da civilização. A mesa e os convidados reunidos em torno dela compartilhavam seus prazeres por onde desfilavam ouriços do mar, ostras, vieiras, cogumelos em redes de prata, meninos de cabelos compridos lascivos, lavando os pés dos hospedes, lebres, javalis, patos, gansos e codornas, marrecos... Ah, os marrecos..., Bem continuando, marmelos, mel dos mais variados tipos, tâmaras, enfim, o princípio do que se viria a se chamar “haute cuisine”. Bom, esta era a intenção. Os deuses gregos que me desculpem, mas foram mui educadamente deixados de lado para o próximo artigo ( efeito da maniva).
O livro do mês: “Deve ter sido alguma coisa que comi”, de Jeffrey Steingraten, o mesmo que escreveu “O homem que comeu de tudo”, o temido e festejado critico gastronômico da revistaVogue americana, famoso por desmistificar os regimes de emagrecimento, preconceitos, lendas intolerâncias e invenções sobre o mal que a comida pode ocultar. No livro, ele procura pelo melhor sal, a melhor baguete, a melhor pizza, o bife mais extraordinário, o bistrô perfeito.Viaja para a China, Tailândia, Itália e sempre volta para tentar entender em casa o que comer, e passar adiante a boa nova. E é exatamente isso que estou tentando fazer e passar adiante.
No áudio, não poderia deixar de registrar um disquinho que me perseguiu durante todo o ano de 2005: Steve Howe, interpretando musicas de Bob Dylan. Sim, ele mesmo, o guitarrista do Yes. Vale a pena. Simples e despretensioso, aliás, como todo o ano de 2005.
Bom o cardápio que selecionei como sugestão para as Festas tem um pouco de tudo, regional, gourmet,o tradicional e uma pitada de simplicidade ... principal ingrediente do universo...
A todos, um Feliz Natal e um Ano novo cheio de esperança, onde teremos a oportunidade de mudar de verdade a cara deste País.
TINTIN
Pedro Rui Botelho
pedrorui@servifacil.com.br