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Carnaval 2005



"Bumbum paticumbum prugurudum"

Confesso para vocês que fica difícil escrever sobre gastronomia, a boa comida diante de uma tragédia do tamanho e da forma que aconteceu na Ásia. Logo na Ásia, terra de especiarias, cheiros e sabores misteriosos, gengibres e leite de coco, currys dos mais variados, garam marsalas (mistura picante de especiarias), ghee (manteigas sólidas clarificadas), iogurtes com cardamomo e açafrão... enfim... para ser bastante obvio, terra de comida cheirosa...de gente de, e do bem

Paralelo às tsunamis e suas forças, vivi e vivo também um momento particular e doloroso entre ser o melhor e o menor... uma situação em que um grupo de pessoas têm o poder de decidir sobre a vida de um outro grupo, depois de uma parceria construída ao longo de mais de dez anos com excelentes resultados... e é assim, neste momento tal qual diante de uma onda gigantesca que nos sentimos pequenos, menores, à mercê das marés... (sem querer fazer nenhum tipo de trocadilho com tamanha tragédia...) ...enfim vá entender a cabeça do ser humano...

Bom, mas não quero de forma alguma transformar este espaço em um mar de lamentações, ou então passar uma imagem de vitima, coitadinho ou coisa parecida, longe disso... não é esta, nem nunca será a nossa intenção, a proposta é e sempre será a de proporcionar o prazer, a alegria da degustação... ressaltar o paladar, sentir os sabores, enfim falar sobre o doce e o azedo, o salgado e o amargo, falar do trabalhar na cozinha, como um ato de fé e paixão.

A idéia original para o mês de janeiro era poder falar do ícone da cozinha Brasileira ,o nosso prato mais famoso, ”a feijoada”, afinal de contas..., pré-carnaval, samba, Rio, ...tudo a ver... ou seja falar de um cozido de feijão preto com pedaços nobres ou não de carne de porco, temperado com pimenta vermelha e enxaguado com cachaça.

Não há um sábado que se preze no qual nossas glândulas não salivem por uma degustação de seu sabor único e incomparáve. Ela, entretanto, é vitima –injustamente- do terror atual da febre das comidas light e das pessoas que a denominam como um prato inadequado às nossas condições climáticas, "pesado", "quente", excessivamente calórico, mas que certamente deixa intacto o coração dos gourmets em todo o mundo .

Estas e outras acusações são feitas por pessoas que certamente concluíram que o nosso prato nacional deveria ser uma sopa fria como aVichyssoise dos franceses ou o peixe cru dos japoneses.Acontece que a feijoada não é exclusiva dos brasileiros.Os mexicanos ,por exemplo ,que vivem em temperaturas altas não dispensam o prato “chilli com carne” ,um cozido de muito feijão e carne com muita pimenta,ou seja ,da mesma forma que os países tropicais abraçam comidas calóricas e apimentadas em países frios ocorre o contrário:os escandinavos comem sanduíches frios,os esquimós peixe cru e ao contrario da maioria das cartilhas onde se diz que a feijoada seria uma herança da alimentação dos escravos,de acordo com o mestre Câmara Cascudo no seu já clássico “ Historia da alimentação no Brasil “, a feijoada completa, a nossa gloria nacional foi uma herança aculturada do cozido português com feijão e carne-seca pois os africanos não empregavam óleos vegetais e menos gorduras animais para frigir,ou seja não conheciam a fritura.

Em resumo , a feijoada é o nosso “delírio tropical” e para que a feijoada seja de fato uma experiência para o paladar e para a alma ,algumas regras básicas:

Antes: cachaça,pura ou na forma de caipirinha.Tem que ter.

  • Durante: é imprescindível a presença das partes ricas(rabo,orelha,língua) do porco.São elas que conferem a untuosidade do prato.
  • Depois: O que segue faz parte do ritual,café ,para quem fuma um bom charuto,baiano de preferência e uma rede,isso mesmo uma rede é indispensável...
  • Obs: Resgatar um disco de Vinicius de Moraes também é obrigatório...

O livro do mês :”Na mesa ninguém envelhece” , de José Antonio Pinheiro Machado, ou melhor “anonymus gourmet” ,uma deliciosa descoberta em uma daquelas livrarias de aeroporto que de tudo tem um pouco , no formato pocket book da editora LPM, um verdadeiro tutano perdido no meio de um cozido .procurem,comprem .

Para que não termine esta coluna com algum tipo de sentimento de culpa calórico as receitas que escolhi para o carnaval são leves e saborosas ideais para repor as energias de forma saudável e principalmente fáceis de preparar.

Um bom carnaval e “inté” fevereiro.

 

Pedro Rui Botelho

pedrorui@servifacil.com.br





 

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